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“Futuras Cientistas” – Duas estudantes do ensino médio de escolas públicas produzem iguarias à base de cubiu em laboratório da Ufam

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Elas usaram a fruta amazônica de consumo não convencional para produzir formulações como cubiu cristalizado, cubiu em calda, doce em massa e geleia. “Chocoranja” e dois tipos de chocolate também estão na lista de produtos

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À primeira vista, a qualificação de “futuras cientistas” poderia indicar algo distante no tempo e no espaço, ainda mais para as jovens Maria Gabriela Porto Silva, 16, e Ana Luiza Nery, 17, finalistas do ensino médio em escolas públicas na cidade de Manaus-AM. No entanto, o Programa Futuras Cientistas ressalta a atuação potente das estudantes da educação básica para a ciência a partir de investigações realizadas em universidades e institutos de pesquisa no Brasil todo. No Laboratório de Bioenergia da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Amazonas (FCA/Ufam), Maria Gabriela e Ana Luiza dão os primeiros passos dessa jornada ao produzirem formulações alimentícias tendo como base a fruta amazônica cubiu, ainda pouco conhecida e cujo consumo não é convencional.

Nascido no Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), o Programa foi ampliado e se tornou uma política pública nacional que envolve o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e conta com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em síntese, a iniciativa tem o propósito de estimular o contato de alunas e professoras da rede pública de ensino com as áreas prioritárias de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). E o objetivo mais importante: promover a equidade de gênero no campo da produção científica brasileira ao atribuir destaque às mulheres pesquisadoras.

Na Ufam, a participação vem sendo promovida há três edições pela professora Eyde Cristiane Saraiva Bonatto (coordenadora) e pelo professor Victor Lamarão (vice-coordenador), ambos da FCA. A professora explica que o projeto é sempre pensado para estar em um meio-termo de complexidade, considerando o nível de conhecimento do ensino médio. Por outro lado, a formação inclui uma série de aulas teóricas e palestras, quando são ensinados conceitos básicos que serão aplicados no laboratório com o auxílio de uma docente da rede básica. “Tudo é feito no mês de janeiro, que é o período das férias escolares, para não atrapalhar o ano letivo das meninas. O que a gente faz é uma imersão científica com elas, que vão agora iniciar o terceiro ano do ensino médio. O objetivo do programa é despertar nelas o interesse pela ciência e pela tecnologia”, resume a docente.

Como a professora leciona, investiga e orienta pesquisas acadêmicas na área de tecnologia de alimentos, o processo natural foi que os projetos da Ufam envolvessem formulações alimentícias. O diferencial, ao longo desses anos, têm sido a aplicação de frutas amazônicas, como jenipapo, jambolão e cubiu, embora um dos enfoques do projeto de 2025 tenha sido para o processamento de frutas como banana, laranja e maracujá na agroindústria local. Para ela, essa é também uma forma de compartilhar a diversidade de espécies da Amazônia com potencial para se tornarem produtos no mercado de alimentos.

Segundo a coordenadora, desde 2024, é parte essencial das atividades o enfoque em aspectos técnicos da atuação científica no ramo da manipulação de alimentos para o consumo humano. “Nosso trabalho inclui aulas sobre as boas práticas, a paramentação exigida nas normas técnicas [por exemplo, uso de luvas e máscaras], a aplicação rigorosa de processos que vão desde a desinfecção dos alimentos, dos objetos e da bancada até o correto armazenamento das formulações, passando pelo uso de equipamentos de pesagem, medição precisa de quantidades, entre outros cuidados”, esclarece a professora.

Imersão científica

Maria Gabriela Porto, 16, é finalista do ensino médio no Centro de Educação de Tempo Integral Sérgio Pessoa, localizado no bairro Cidade de Deus. Ela foi selecionada em 2025 e conta que a escola onde estuda mantém o 8 como nota mínima para aprovação. “Foi uma experiência totalmente diferente. Passamos por uma seleção no Brasil em que avaliaram as nossas notas em biologia, química, física e matemática. São matérias em que eu tenho um bom desempenho e, também, eu sempre gostei de estudar. Eu e minhas colegas nos inscrevemos cada uma em um projeto, mais para experimentar coisas novas, ter a experiência de estar num laboratório. Aqui eu realizei desde a higienização da fruta até o preparo do produto”, relatou Maria Gabriela, cuja formulação preferida foi o sorvete.

Ana Luiza Nery, 17, também iniciou recentemente o terceiro ano do ensino médio, só que na Escola Estadual Cívico-Militar Ângelo Ramazzotti, onde o mínimo para aprovação é 7. A finalista, no entanto, mantém como meta pessoal médias acima de 8,5. “Eu assisti a uma palestra de uma professora sobre o quão importante a gente ter as mulheres no meio da tecnologia e da ciência. Isso virou uma chave na minha cabeça, porque eu sempre gostei de estar por dentro dos projetos da escola, como as feiras de robótica. Então, assim que saiu o edital da imersão científica 2026 eu me inscrevi logo”, recorda ela.

“É muito gratificante ver o resultado do nosso trabalho, todo esse reconhecimento… porque as pessoas que vieram provar durante a análise, e os jornalistas que também provaram, falaram que realmente era muito bom”, orgulha-se a jovem ao partilhar o desejo em cursar, na Ufam, alguma graduação na área de Ciências Agrárias. Por enquanto, ela está mesmo inclinada a escolher a Engenharia de Alimentos. Assim como a dupla, Ana Luiza também elegeu o sorvete como a melhor formulação do projeto.

Professora de Química da rede estadual que hoje atua em três escolas, Alyne Ribeiro também passou por uma seleção nacional. Para a atividade dela, que é docente, o parâmetro é a análise do currículo Lattes, realizada em outubro passado. O histórico em outras ações de pesquisa e extensão e a conquista de prêmios profissionais foram os diferenciais para que Allyne Ribeiro integrasse a equipe da Ufam no Programa Futuras Cientistas, em 2026. “Tenho um currículo com cursos realizados no Amazonas e em outros estados também. E eu busco manter o meu currículo sempre atualizado”, afirma ela, que auxiliou as alunas ao longo da execução.

Manipulação de alimentos

Antes mesmo de “botar a mão na massa” no preparo das iguarias com o cubiu, Maria Gabriela e Ana Luiza receberam treinamento de profissionais e pesquisadores em temas como “ética da pesquisa que envolve seres humanos” e “sanitização”. Os ensinamentos sobre esse tema ficaram a cargo da pesquisadora Maria das Graças Saraiva, servidora da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT). “É indispensável, no campo científico, ter muito clara toda a tramitação de projetos nos Comitês de Ética em Pesquisa. Como elas estão aqui num processo de imersão relativo à iniciação científica, elas precisam saber como é o processo para a pesquisa que envolve seres humanos, desde o cadastramento na plataforma até a aprovação”, resume a pesquisadora.

Ainda em nível conceitual, as estudantes aprenderam que, quando se trabalha com esse tipo de matéria-prima (as frutas), mesmo aquelas que foram coletadas no campo, diretamente das árvores, elas também precisam passar pela etapa tecnicamente chamada de “sanitização ou branqueamento” antes de se iniciar preparo das fórmulas. É a fase zero. Basicamente, a sanitização é o processo de imergir as frutas em uma solução de hipoclorito, lavando-as, em seguida, com água pura.

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Imunologia Básica e Aplicada (PPGiba), Jean Saraiva contribuiu para a formação ao compartilhar os dados científicos e as técnicas reguladas para a sanitização dos alimentos. Na contextualização das palestras, Jean trouxe dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) dando conta de que, anualmente, cerca de 600 milhões de pessoas desenvolvem algum tipo de doença transmitida por alimentos (DTA), com aproximadamente 420 mil óbitos anuais. 

“A formação foi em duas etapas. Na primeira, falamos conceitos básicos sobre a sanitização aplicada na indústria de alimentos, uma parte mais teórica mesmo. A segunda foi acompanhar a execução dessas técnicas em laboratório, com uso de produtos específicos, com quantidade e tempo de exposição controlados”, revela o mestrando da Ufam. “Nessa limpeza, conseguimos combater aqueles micro-organismos que a gente não consegue ver a olho nu, que são bactérias, fungos, vírus [...]”, completa Jean.

Aprovadíssimo cool

Ainda que a equipe tenha produzido um conjunto mais amplo de formulações de forma supervisionada e controlada, a limitação na escalabilidade da a pesquisa científica no laboratório é algo previsto. Por esse motivo, as pesquisadoras escolheram três entre as “receitas” para levar ao crivo dos possíveis consumidores, nesse caso, os transeuntes da Faculdade de Ciências Agrárias da Ufam. Foram elas: cubiu em calda, cubiu cristalizado e sorvete de creme com cubiu. Cada formulação foi replicada em 50 vezes, somando-se 150 provas em copos descartáveis de cafezinho para serem avaliadas pela comunidade.

João Vitor Miranda, discente do 7º período do curso de Engenharia de Alimentos e pesquisador de iniciação científica sob a orientação da professora Eyde Bonatto, cumpriu funções distintas nestas duas últimas edições do “Futuras Cientistas”. Na edição de 2025, ele foi monitor de duas oficinas, auxiliando as meninas e a professora tanto na parte de teoria e conceitos como na parte de execução”, recorda. Já neste ano, ele ficou responsável por sistematizar as respostas obtidas “análise sensorial”.

Ele explica que, quando a formulação obtém aprovação maior ou igual a 70% nesse teste com o público, isso já significa que o produto tem condições de estar no mercado.

“Cada um dos 50 participantes provou as  três formulações e, em seguida, respondeu ao formulário. Os resultados foram tabulados e nós ficamos muito satisfeitos com a aceitação das pessoas em relação aos doces que nós selecionamos para essa etapa. O grau de aceitação de um produto, por essa análise, é obtido com base nas características que ele tem, como aroma, acidez e sabor, entre outros. Os três foram muito bem avaliados”, comemora João Vitor.

O sorvete de creme com cubiu recebeu 93% de avaliações positivas e o público indicou 88% de intenção de compra, caso fosse comercializado. Quanto ao cubiu em calda, 82% dos respondentes gostaram do produto e 78% disseram que comprariam se estivesse à venda. Em relação ao terceiro item, o cubiu cristalizado, a aceitação global foi de 87%,  enquanto a intenção de compra alcançou 84%. Segundo a equipe, esses resultados são muito promissores, considerando que o cubiu ainda é uma fruta desconhecida de grande parte da população, inclusive no Amazonas.

Jenipapo, jambolão, banana, cubiu…

Edição 2024 – Em sua primeira participação, a Ufam realizou o projeto “Futuras Cientistas na Tecnologia de Alimentos: desenvolvimento e aceitabilidade de produtos alimentícios desenvolvidos utilizando frutas não convencionais da Amazônia”. A formação teórica e conceitual ocorreu em formato híbrido, com atividades síncronas e assíncronas. “As atividades práticas foram realizadas nos Laboratórios de tecnologia de alimentos, bioenergia e informática. As jovens participaram do desenvolvimento de doce em massa, geleia, jujuba, fruta cristalizada e iogurte com doce utilizando frutas não convencionais da Amazônia”, descreve a professora Eyde Bonatto. 

Naquele ano, o jenipapo (Genipa americana L.) e o jambolão (Syzygium cumini (L.) Skeels ) foram as frutas escolhidas. Na etapa de análise sensorial, foram preparadas provas do iogurte grego com doce de jambolão. Participantes naquele ano: Yasmin Dantas de Souza, Marcela de Souza Rodrigues, Lara Susany Leite dos Santos, Ana Cristina Batista de Oliveira, Geovana Elizabeth Almeida da Silva e Manuella de Melo Cativo. 

Edição 2025 – Na segunda participação, a equipe da Ufam defendeu o projeto “Futuras Cientistas na Tecnologia de Alimentos: Processamento de frutas para agroindústria na Amazônia”. Desta vez, toda a formação foi presencial, incluindo as aulas teóricas e as práticas de laboratório, além de uma visita técnica. “Nos laboratórios, as estudantes participaram do desenvolvimento de produtos alimentícios para a prática de análise sensorial de chocolate orgânico, chocoranja, iogurte grego com doce de banana caramelizada, laranja cristalizada e desidratada, geleia de banana com canela, geleia de laranja, geleia de maracujá, sorvete de creme com trufado de chocolate, sorvete de creme com maracujá. Também doce em massa (goiabada) e abacaxi cristalizado”, enumerou a coordenadora do trabalho. 

Em 2025, a ênfase foi no processo aplicado na agroindústria, quando espécies como banana, laranja e goiaba, por exemplo, são amplamente beneficiadas. Nessa edição, participaram as estudantes Ana Roberta Moraes Barbosa, da Escola Estadual Karla Patrícia Barros de Azevedo; e Gabrielle Lima Falcão, Geovana Ferreira Rodrigues e Thifanny Cruz dos Santos, da ETI Senador Petrônio Portella, além da professora da educação básica Rosineide Cardoso de Souza.

Edição de 2026 – Para a defesa no evento ocorrido em janeiro deste ano, cuja seleção nacional foi em 2025, a aposta foi no cubiu, uma fruta típica da região amazônica. O projeto “Futuras Cientistas no Desenvolvimento de Produtos Alimentícios da Amazônia” contou com palestras, aulas teóricas e práticas de laboratório, todas elas presenciais. “Nos laboratórios, as estudantes participaram do desenvolvimento dos produtos alimentícios e demos ênfase ao uso da fruta PANC cubiu (Solanum sessiliflorum Dunal) em três produtos preparados para análise sensorial: cubiu cristalizado, cubiu em calda, sorvete de creme com cubiu cristalizado”, explica a docente da FCA. 

Além desses que foram para o crivo de “prováveis consumidores”, o grupo formulou outros produtos na etapa  de laboratório, como chocolate orgânico 50%, chocolate branco, chocoranja, iogurte grego com doce de cubiu, doce em massa de cubiu e geleia de cubui. “Não é possível produzir todas as formulações em escala (50 provas de cada) para a fase de análise sensorial. Então, elegemos três delas para levar ao público, embora as meninas tenham trabalhado em outras cinco”, enfatiza a professora Eyde Bonatto.

Frutificar na ciência

E o projeto já está frutificando. Geovana Ferreira, 18, foi uma das participantes da edição passada do programa, também sob a coordenação da professor Eyde Bonatto e do professor Victor Lamarão, em 2025. Hoje a jovem é caloura do curso de Engenharia de Alimentos e estudará pelos próximos anos na FCA/Ufam, onde terá oportunidade de se envolver ainda mais com pesquisa,  inovação científica e extensão universitária.

“Eu sempre gostei dessa área de alimentos, mas eu achava que era só gastronomia. Depois que eu vim para o projeto, no ano passado, eu conheci a Engenharia de Alimentos. [...] O engenheiro de alimentos está presente na nossa vida e a gente nem sabe disso… Tudo o que a gente come passou pela mão de um engenheiro de alimentos. É uma área invisível, porque, quem vê vê o alimento nem imagina que tem toda uma ciência por trás, né?”, reflete a futura estudante da Universidade.

Outras duas instituições localizadas no Amazonas também participam do programa. São elas: o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e a Fundação Oswaldo Cruz - Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz/ ILMD Amazônia). Da mesma forma como ocorreu na Universidade Federal, cada uma dessas instituições recebeu duas jovens estudantes do ensino médio e uma docente da educação básica que passaram por uma seleção nacional considerando histórico escolar ou currículo (no caso da professora).

*Fotos: Ascom/Ufam, Seduc e Euzivaldo Queiroz

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