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Dois primeiros doutorandos em Educação cegos defendem teses nos dias 11 e 12 de dezembro

Publicado: Quarta, 04 de Dezembro de 2019, 15h21 | Última atualização em Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 09h48 | Acessos: 806

Os discentes Claudenilson Pereira Batista e Cátia Lemos defendem, respectivamente, nos dias 11 e 12 de dezembro, às 9h, no Auditório Jatapu, localizado no setor Norte do campus universitário, suas teses como requisito obrigatório para obtenção do grau de doutores em Educação. Os alunos são deficientes visuais orientados pela professora Maria Almerinda de Sousa Matos e ligados ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em Psicopedagogia Diferencial (Nepped), da Faculdade de Educação (Faced).

Depois da aprovação, eles serão os primeiros doutores cegos em Educação do Amazonas. De acordo com a orientadora, professora Maria Almerinda Matos, os discentes chegam na fase da defesa após cumprirem todas as exigências antecipadamente. “Nós teríamos até março de 2020 para a defesa, mas preferimos adiantar. Claudenilson e Cátia não só deram conta dos trabalhos, prazos, proficiências e correções necessárias, mas o fizeram sem a ideia paternalista ou assistencialista associada a quem tem alguma limitação. Eles chegam ao final da trajetória pelas próprias competências”, explica a docente.

A orientadora conta ainda que, ao aceitar a orientação, observou o potencial das pesquisas propostas por eles. “Eu não vejo a patologia, vejo o potencial. O Claudenilson, por exemplo, estuda, trabalha, compõe, além de morar sozinho. Com todas essas qualidades, eu só posso enxergar o potencial e não a patologia. As defesas deles abrem para a comunidade acadêmica a importante possibilidade de enfatizar o potencial de qualquer pessoa, e não apenas as patologias. As duas pesquisas buscam solucionar gargalos relacionados às Políticas Públicas voltadas para os deficientes”, analisa a orientadora.

Pesquisas em Políticas Públicas  

A tese da Cátia Lemos, intitulada ‘A implementação da meta quatro do Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024 em 18 planos municipais de Educação no estado do Amazonas’, tem foco na execução da meta quatro do PNE por parte dos municípios do interior do estado. A meta quatro é voltada à universalização da educação básica para a população com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação.

Cátia conta que, para compor o corpus da pesquisa, incluiu as nove calhas dos rios que cortam o Amazonas, sendo dois municípios por calha, e foram analisados 18 planos municipais. De acordo com a doutoranda, as análises dos planos municipais permitiram saber se eles estavam em consonância ou dissonância com o Plano Nacional de Educação. “Os municípios enfrentam muitos desafios, e não apenas por conta das distâncias territoriais, mas pelos investimentos que não são, realmente, colocados em Educação Inclusiva. Ainda há falta de acesso, exclusão das crianças e dificuldade na permanência dessas crianças nas escolas públicas. Todos têm direito a educação, mas, infelizmente, esse direito não está sendo respeitado e garantido na maioria das escolas públicas dos municípios pesquisados”, contou.

A orientadora, professora Maria Almerinda Matos, explica que a pesquisa de Cátia Lemos traz uma contribuição significativa para se pensar as políticas públicas na área da Educação Inclusiva. “A investigação vai mostrar, com o devido rigor científico, o descaso do Poder Público. Infelizmente, ela confirma que as leis existem, mas não são colocadas em prática. No interior do estado isso é ainda mais evidente. Esta pesquisa é um sinal de alerta para os órgãos fiscalizadores como Ministério Público e os Conselhos Municipais de Educação”, destaca a orientadora.

Já a tese do Claudenilson Pereira Batista enfatiza a relação entre o deficiente visual e o mercado de trabalho. Intitulada ‘Políticas Públicas de Inclusão: Os trabalhadores com deficiência visual no Polo Industrial de Manaus (PIM)’, a pesquisa busca entender como ocorre a inclusão dos trabalhadores com deficiência visual no setor eletroeletrônico do PIM.

De acordo com Claudenilson Batista, inclusão é um conceito amplo e universalizado e, por vezes, gera confusão. “Não basta colocar o trabalhador de qualquer jeito na fábrica. Para ser considerado inclusão, há a necessidade de atender determinadas características e aspectos da vida humana e social. A investigação é um estudo de caso e levou a concluir por aquilo que nós já suspeitávamos: há muitas dificuldades na inserção destes elementos e aqui, eu chamo de inserção e não inclusão. É uma inserção insipiente”, esclarece o doutorando.

A professora Maria Almerinda comenta que a pesquisa de Claudenilson Pereira Batista revela uma realidade cruel. “O trabalho nos mostra que não há investimentos na qualificação dos deficientes. Aborda a realidade contemporânea brasileira do desemprego sobre como o deficiente visual está inserido nesse contexto. Como resultado da investigação, ele conclui que não há investimento para qualificar esses deficientes e os que tiveram oportunidade de qualificação encontram o despreparo das empresas em recebê-los”, esclarece a orientadora.

Trajetórias

Cátia Lemos é mestre em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e assessora pedagógica na Gerência de Educação Especial da Secretária Municipal de Educação (Semed).  Iniciou a vida acadêmica em 1999, no curso de Pedagogia da Ufam. “Este ano, faço 20 anos de Ufam, 25 anos convivendo com a cegueira e 27 anos de Magistério. Eu era professora desde os 15 anos e, com a perda da visão, tive de encontrar outras maneiras para poder ministrar as aulas. Fui pesquisar, estudar e acabei chegando na pós-graduação”, recorda a discente.

Ela explica que seu trabalho de assessoramento pedagógico na Gerência de Educação Especial da Semed inclui orientação aos pais, formação de professores e atendimento às crianças com deficiência no ensino regular. “A experiência na pós-graduação nos traz subsídios teóricos e novos saberes. É possível teorizar a prática e isso é estratégico para o nosso crescimento pessoal e profissional”, avalia.    

O doutorando Claudenilson Pereira é mestre em Educação pela Ufam e graduado em Filosofia, também pela Ufam. Trabalha na Gerência de Educação Especial da Semed como assessor pedagógico e visita as escolas municipais para acompanhar e orientar os professores que tenham alunos com deficiência. “Eu tive toda a formação na Ufam e a vontade de ser pesquisador surgiu da minha militância no segmento da deficiência visual. Quando fui trabalhar na Semed, tive a oportunidade de ser disponibilizado para a Associação dos Deficientes Visuais do Amazonas (ADVAM), onde, do convívio diário com os associados, tomei conhecimento dos problemas viscerais no segmento”, explica.

Claudenilson foi diretor de qualificação e colocação no mercado de trabalho da ADVAM e começou a acumular dados qualitativos de pessoas com deficiência visual na cidade de Manaus. “Voltei-me para as pessoas que buscavam a Associação e comecei a traçar um perfil, levando em consideração gênero, faixa etária, escolaridade e aspirações profissionais. Naquele momento, eu já estava fazendo pesquisa, ainda sem o rigor científico, mas com a vontade de entender um determinado grupo. O meu despertar para a pesquisa científica foi conhecendo os problemas do segmento”, recorda ele.

Próximos passos

Ao falarem das expectativas para depois da defesa, os discentes Claudenilson Batista e Cátia Lemos planejam fazer a diferença nas respectivas áreas de atuação. Para eles, a presença da pessoa com deficiência em ambientes como o universitário é o que faz a sociedade mudar.

“Meu projeto de sociedade é onde as pessoas com deficiência possam galgar lugares muito mais altos do que nós já conseguimos. Então, penso que precisamos continuar lutando para que estes direitos sejam garantidos e efetivados no Amazonas. É isso que vai permitir que todas as pessoas que tenham o sonho de chegar na pós-graduação consigam”, afirma Cátia Lemos.

Para Claudenilson Batista, são dois os compromissos depois da defesa. “O primeiro é o compromisso acadêmico, com a Universidade, de continuar produzindo. Produzir artigos da tese, continuar escrevendo em parceria com minha orientadora. O outro é o pessoal. Vou buscar alguma instituição em que eu possa desenvolver e aplicar os conhecimentos sedimentados ao longo do mestrado e do doutorado, visando a contribuir com a formação desta juventude, que em breve estará assumindo nossos lugares. É com a nossa juventude que quero dialogar a partir de agora”, planeja.

Segundo a professora Maria Almerinda de Sousa Matos, a partir deste título, eles terão a responsabilidade ampliada. “Uma tese nunca tem um ponto final. Agora, depois da defesa, eles devem prosseguir contribuindo com a construção do conhecimento científico. As investigações abrem se para questões que darão ensejo a outras pesquisas. O compromisso deles é continuar produzindo, para quem sabe, serem credenciados a orientar projetos na Linha 4”, conclui a orientadora.

 

 

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